
Por Emerson Gomes
Presidente da Força Sindical Bahia
O movimento sindical brasileiro atravessa um dos momentos mais desafiadores de sua história. As transformações provocadas pela revolução tecnológica, pela digitalização da economia, pela inteligência artificial, pelas mudanças nas formas de contratação e pelas novas dinâmicas produtivas impõem à organização dos trabalhadores a necessidade de renovar estratégias, fortalecer sua capacidade de representação e reafirmar seu papel como protagonista na construção de um projeto nacional de desenvolvimento.
Na Bahia, a Força Sindical escolheu enfrentar esse desafio da forma mais democrática possível: ouvindo quem vive a realidade do trabalho em cada território. Foi com esse propósito que iniciamos um amplo processo de interiorização e reorganização da nossa Central, realizando encontros regionais que reuniram dirigentes sindicais, trabalhadoras e trabalhadores, pesquisadores, universidades, representantes de movimentos sociais, gestores públicos e lideranças políticas.
Passamos pelo Sul e Extremo Sul, pela Regional Sertaneja, pelo Oeste e Sudoeste, pelo Recôncavo, Vale do Jiquiriçá e Feira de Santana, além de promover encontros específicos dos setores dos Servidores Públicos e dos Rodoviários. Em cada região, encontramos realidades distintas, mas um diagnóstico comum: a classe trabalhadora continua sendo o principal motor do desenvolvimento, porém enfrenta novos desafios que exigem respostas coletivas e um sindicalismo cada vez mais forte.
No Sul e Extremo Sul, o debate destacou o potencial econômico da indústria, do turismo, da agricultura e das cadeias produtivas ligadas ao porto e ao comércio exterior. Ao mesmo tempo, discutimos os impactos da precarização das relações de trabalho e a necessidade de ampliar investimentos capazes de gerar empregos formais e de qualidade.
Na Regional Sertaneja, o foco esteve na convivência com o semiárido, na agricultura familiar, na economia regional e na necessidade de políticas públicas que combatam as desigualdades territoriais. Ficou evidente que desenvolvimento regional significa garantir oportunidades para que os trabalhadores permaneçam em seus municípios com dignidade, renda e perspectivas de futuro.
Na Regional Oeste e Sudoeste, regiões marcadas pela força do agronegócio, da agroindústria, da logística e do comércio, debatemos os desafios de conciliar crescimento econômico com valorização do trabalho. Não basta produzir riqueza; é preciso garantir que ela seja distribuída por meio de empregos decentes, salários justos, negociação coletiva e respeito aos direitos trabalhistas.
Na Regional Recôncavo, Vale do Jiquiriçá e Feira de Santana, o diálogo apontou para a importância da reindustrialização da Bahia, da retomada da indústria naval, do fortalecimento da agricultura familiar, da economia do conhecimento e da inovação tecnológica. São territórios que possuem enorme potencial econômico, mas que ainda convivem com a informalidade, a baixa remuneração e a dificuldade de inserção da juventude no mercado formal.
Os encontros setoriais também revelaram desafios específicos. Entre os servidores públicos, reafirmamos que a valorização do serviço público significa defender políticas públicas de qualidade para toda a população. Nos rodoviários, debatemos as transformações provocadas pela modernização do transporte, pela mobilidade urbana e pelas novas tecnologias, reafirmando a necessidade permanente de proteção aos direitos da categoria.
Apesar das diferenças regionais e setoriais, uma conclusão foi unânime em todos os debates: o Brasil precisa recolocar o trabalho no centro de seu projeto de desenvolvimento.
Não existe desenvolvimento sustentável sem geração de empregos de qualidade. Não existe crescimento econômico verdadeiro quando ele se apoia na precarização das relações de trabalho, na informalidade ou na retirada de direitos. Não existe democracia sólida sem liberdade sindical, negociação coletiva e participação efetiva da classe trabalhadora nas grandes decisões nacionais.
Vivemos um momento em que a inteligência artificial, a automação, a economia de plataformas e a digitalização transformam profundamente o mundo do trabalho. Essas mudanças não podem servir como justificativa para reduzir direitos ou enfraquecer a proteção social. Pelo contrário: exigem um novo pacto social capaz de assegurar que os ganhos de produtividade sejam compartilhados com quem produz a riqueza do país.
Da mesma forma, a transição energética e o avanço da economia verde representam oportunidades extraordinárias para a Bahia. Nosso estado reúne condições únicas para liderar investimentos em energias renováveis, hidrogênio verde, indústria de transformação, infraestrutura, logística e economia do mar. Entretanto, defendemos uma transição justa, que gere empregos, qualifique trabalhadores e reduza desigualdades, sem deixar ninguém para trás.
Outro tema recorrente em todas as regiões foi a necessidade de fortalecer a negociação coletiva. Em um cenário de rápidas mudanças, ela continua sendo o principal instrumento para equilibrar as relações entre capital e trabalho, promover melhores salários, ampliar direitos e construir ambientes produtivos mais justos e democráticos.
Também ficou evidente que o movimento sindical precisa dialogar com uma nova geração de trabalhadores. Jovens, mulheres, trabalhadores por aplicativos, autônomos, terceirizados, trabalhadores informais e profissionais da economia digital precisam encontrar nos sindicatos espaços de acolhimento, organização e representação. Renovar a comunicação, investir em formação política e sindical e utilizar as ferramentas digitais são tarefas estratégicas para garantir a renovação do sindicalismo brasileiro.
Ao longo desse processo de interiorização, reafirmamos outro compromisso fundamental: fortalecer a participação das mulheres, da juventude, da população negra e de todos os segmentos historicamente sub-representados nas direções sindicais. Um movimento sindical forte é, necessariamente, plural, democrático e comprometido com a igualdade de oportunidades.
Os debates também reforçaram a importância da atuação política da classe trabalhadora. Defender direitos exige presença nos espaços de decisão. Por isso, a Força Sindical Bahia continuará trabalhando para fortalecer a representação dos trabalhadores no Congresso Nacional, na Assembleia Legislativa, nas câmaras municipais e em todos os fóruns de formulação de políticas públicas.
A defesa da redução da jornada de trabalho, da valorização do salário mínimo, da liberdade sindical, do fortalecimento da negociação coletiva, da reindustrialização do Brasil, do desenvolvimento regional e da ampliação do investimento público continuará orientando nossa atuação.
Acreditamos que o projeto nacional de desenvolvimento deve combinar crescimento econômico, soberania, inovação, sustentabilidade ambiental e justiça social. Nenhuma dessas dimensões será plenamente alcançada sem o protagonismo da classe trabalhadora organizada.
É justamente por isso que a Força Sindical Bahia escolheu percorrer o estado, ouvir suas bases e construir coletivamente uma agenda para o futuro. Mais do que realizar encontros, estamos fortalecendo uma rede de diálogo, cooperação e mobilização capaz de preparar nosso movimento sindical para os desafios do século XXI.
Esse ciclo de interiorização representa um marco na reorganização da nossa Central. Cada regional deixou contribuições importantes que serão incorporadas às prioridades da Força Sindical Bahia para os próximos anos, fortalecendo nossa unidade e nossa capacidade de intervenção política em defesa do trabalho decente, do desenvolvimento regional e da democracia.
Encerramos essa etapa com a convicção de que somente a organização coletiva será capaz de responder às profundas transformações do mundo do trabalho. O sindicalismo continua sendo um instrumento indispensável para reduzir desigualdades, promover justiça social e garantir que o desenvolvimento econômico beneficie toda a sociedade.
Concluiremos esse importante ciclo de interiorização e reorganização da Força Sindical Bahia com o Encontro da Regional Salvador e Região Metropolitana, que será realizado no dia 22 de julho, em Salvador. Será o momento de reunir as contribuições construídas em todas as regiões do estado, consolidar uma agenda comum e reafirmar nosso compromisso com um sindicalismo moderno, democrático, combativo e comprometido com o fortalecimento do projeto nacional de desenvolvimento.
Seguiremos unidos, organizando os trabalhadores e trabalhadoras da Bahia, fortalecendo nossas entidades sindicais e construindo, todos os dias, um futuro em que desenvolvimento econômico, democracia e valorização do trabalho caminhem lado a lado. Porque acreditamos que um Brasil mais justo começa com uma classe trabalhadora forte, organizada e protagonista do seu próprio destino.

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