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Quem fala pelo trabalhador em Brasília?

2026 abre disputa decisiva pela reconstrução da representação dos trabalhadores no Congresso.  Marcos Verlaine* As eleições de 2026 não serão apen

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2026 abre disputa decisiva pela reconstrução da representação dos trabalhadores no Congresso.

 Marcos Verlaine*

As eleições de 2026 não serão apenas mais uma disputa por cadeiras no Congresso Nacional. Essas se anunciam como teste político decisivo sobre quem, de fato, terá voz na formulação das leis que organizam o mundo do trabalho no Brasil.

Depois de anos de retração, a representação direta dos trabalhadores tenta sair da defensiva e transformar resistência social em força institucional.

O desafio é grande. Mas o momento é singular.

REPRESENTAÇÃO ENCOLHIDA

A chamada bancada sindical — que já foi numerosa e influente — chegou a um de seus menores patamares históricos, com cerca de 44 parlamentares em legislaturas recentes.

É um número modesto diante do peso das bancadas empresarial, financeira e ruralista, hoje amplamente hegemônicas no Congresso.

Essa assimetria não é casual. É fruto de ciclo político que, ao longo da última década, desorganizou o sistema de proteção ao trabalho, enfraqueceu sindicatos e reduziu a presença do trabalhador como sujeito político, convertendo-o em mero objeto de ajustes fiscais e reformas estruturais — na verdade, contrarreformas —, como a Trabalhista e da Previdência, entre outras.

SINAL INESPERADO DA BASE SOCIAL

Contra esse pano de fundo, um dado merece atenção: em 2024, após mais de 10 anos de queda contínua, a sindicalização voltou a crescer.

Foram 812 mil novos trabalhadores sindicalizados, levando o total a 9,1 milhões — cerca de 8,9% dos ocupados.

Não se trata de “explosão”, mas de inflexão histórica.

O dado sugere que, diante da precarização persistente, parcelas do mundo do trabalho voltam a perceber valor na organização coletiva. Em política, mudanças de tendência costumam anteceder mudanças institucionais. Mas não as garantem.

PAUTAS QUE PODEM MOBILIZAR

A agenda trabalhista para 2026 tende a se concentrar em temas de alto impacto cotidiano, com forte potencial de mobilização eleitoral.

O fim da escala 6×1, por meio de proposta de emenda constitucional, desponta como bandeira simbólica. A simples possibilidade de sua votação no Senado já desloca o debate público para a ideia de que produtividade não precisa caminhar junto com exaustão.

Não por acaso, setores do varejo — como redes supermercadistas do interior paulista — vêm adotando a escala 5×2 para reter mão de obra qualificada, antecipando o futuro por pragmatismo, não por altruísmo.

A redução da jornada de trabalho, por sua vez, volta ao centro da arena política não como utopia, mas como estratégia de desenvolvimento, saúde pública e reorganização do tempo social.

Soma-se a isso a disputa por direitos nas novas economias, especialmente para trabalhadores de aplicativos, e o debate sobre tarifas de transporte, que pesam diretamente no salário real.

RELÓGIO CORRE CONTRA. E A FAVOR

O calendário eleitoral impõe limites claros. O Congresso tende a concentrar votações relevantes no primeiro semestre de 2026, antes que o processo eleitoral paralise o Legislativo.

Isso significa que as pautas sociais terão janela curta e pressão alta.

Ao mesmo tempo, a eleição de 2026 trará a renovação de 2/3 do Senado, com 2 vagas por estado.

Poucas vezes houve oportunidade tão ampla de recompor a correlação de forças em uma Casa que historicamente atua como freio — muitas vezes conservador — às demandas sociais.

REPRESENTAR É ESCOLHER LADO

Entidades como o DIAP e as centrais sindicais têm sido diretas: sem bancada comprometida com a revisão crítica das reformas Trabalhista e previdenciária, qualquer agenda de reconstrução será retórica.

Não se trata de nostalgia legislativa, mas de reconhecer que parte dessas reformas produziu desequilíbrios estruturais, fragilizando o trabalhador sem entregar o dinamismo econômico prometido.

A eleição de 2026 colocará escolha nítida diante do eleitorado: ou o Congresso seguirá operando majoritariamente como gestor dos interesses do capital, ou voltará a refletir, ainda que parcialmente, a diversidade e os conflitos reais do mundo do trabalho.

ESSENCIAL

A representação dos trabalhadores não se reconstrói apenas com boas pautas ou dados animadores. Isso exige voto consciente, estratégia política e organização social.

Sem isso, a retomada da sindicalização pode virar estatística isolada; com isso, pode se transformar em base para mudança mais profunda.

O novo nunca foi neutro. Em 2026, será menos ainda.

Esse trabalhará para alguém. Para quem vai ser, dependerá dos atores sociais em luta, que se saírem melhor na peleja eleitoral.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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